AUTO-MUTILAÇÃO
Atualmente na clínica tem surgido adolescentes e jovens com sintomas de comportamento auto-mutilação, de exposição ao risco e com múltiplas tentativas de suicídio.
São comportamentos violentos a si mesmos, literalmente contra o próprio corpo. Há sempre, discursivamente uma violência ao outro. Talvez por isso há tanto comportamento contra-transferencial dos profissionais de saúde em relação a esses comportamentos, como medo, culpa, raiva, desprezo.
É muito difícil lidar com paciente que seus comportamentos negam a vida e o trabalho de quem lida com a saúde.
A auto-violência é um tabú na sociedade. E por isso, muito mal compreendido. A auto-mutilação, a tentativa de suicido é uma demanda ambígua.
Num plano mais óbvio, significa uma demanda de visibilidade do seu sofrimento. Há também demandas de cuidado, porém com negativas de um cuidado excessivo. Como se o cuidado também significasse uma invasão ao Ego.
O corte na pele, torna uma cicatriz visível: torna visível, imaginariamente, o sofrimento invisível daquele que sofre. É uma clara demanda de reconhecimento.
O retalho na pele mostra a violência deste sofrer. Mas também como o sujeito sente seu Eu invadido, pelas demandas do Outro, pelo sofrer que transborda a pele. A pele é o limite físico e simbólico do meio interno do corpo, do meio externo.
Cortar e lesar a pele é uma forma muito violenta de mostrar ao Outro que esse limite (simbólico) está bastante precário.
O sentir-se em retalhos, em pedaços fragmentados de mal-estar mal compreendido.
A ferida erotiza a cicatriz, a dor, a resposta fisiológica de auto regeneração.
A fala comum é que a dor alivia o sofrimento. Ou seja, a falta de simbolismo da dor e do sofrimento psíquico é traduzida no Real do corpo. Deixa-se visível ao olhar do outro a tradução (mal-feita) corpórea dessa dor.
O mal-entendido dessa tradução é que essa dor não traduzível pela linguagem ao outro.
Os desencadeantes, a história, o romance dessa dor não é verbalizada. São pacientes com ego frágil que demandam atenção com muita violência e ambivalência.
O papel da terapia é encaminhar essa linguagem atuante, uma compreensão dessas demandas por uma via mais compreensível.
Nós psicólogos devemos acolher o mal-estar de forma a permitir que esse sofrimento possa ser falado.

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