Fases do Luto: Depressão/ Tristeza
A depressão ocorre quando a negação e a raiva estão diminuídos, e o
sentimento de perda se sobrepõe. A pessoa percebe que perdeu a saúde,
perderá a vida, amigos, amores, projetos de vida. A depressão entendida como
estágio de enfrentamento da morte é diferente da depressão como doença
psiquiátrica, pois o estado depressivo aqui demonstra uma forma de
elaboração do luto da vida e das perdas relacionadas à própria
morte.(SIMONETTI, 2004; KUBLER-ROSS, 2008).
Quando o paciente em fase terminal não pode mais negar a sua doença, quando é
forçado a submeter-se a mais uma cirurgia ou hospitalização, quando começa a
apresentar novos sintomas e tornar-se mais debilitado e mais magro, não pode mais
esconder a sua doença. Seu alheamento e estoicismo, sua revolta e raiva cederão
lugar a um sentimento de grande perda. (KUBLER-ROSSubler-Ross, 2008. p. 91).
A posição de depressão é uma fase no qual o doente “entrega-se
passivamente a sua doença” (SIMONETTIimonetti, 2004, p.53). Nesta fase, a
pessoa perde as esperanças, desacredita na cura ou na melhora e pode até
não demonstrar medo da morte, ou desejo de viver. Apesar da aparente
indiferença, a pessoa em posição de depressão sofre bastante. Na
manifestação dessa etapa é comum o silêncio e frases do tipo “pra quê?”,“ não
adianta”, “não vai dar certo” (SIMONETTIimonetti, 2004).
Há dois tipos de depressão: a chamada depressão reativa e a depressão preparatória.
A primeira é a aflição inicial que o paciente terminal é obrigado a se submeter para se
preparar, para quando deixar esse mundo, ou caso de doenças crônicas ter de
enfrentar a morte de seu ser anterior. O segundo tipo de depressão, ao invés de se dar
como uma perda passada, leva-se em conta perdas iminentes. (SANTOS E
SEBASTIANI antos e Sebastiani in Camon (org), 2003, p.159).
Entretanto, é necessário distinguir a pessoa em posição de depressão, em
manifestação reativa à doença, e pessoa com doença psiquiátrica de
depressão maior. De acordo com Simonetti (2004, p.53), “convém distinguir os
vários tipos, para evitar tanto uma confusão teórica como uma psiquiatrização
da vida”.
Diferentemente das outras três posições, quando diagnosticamos um paciente que se
encontra na posição depressão, o trabalho ainda não está completo, é preciso ir mais
adiante e especificar o tipo, se depressão reacional (luto) ou depressão melancólica.
Mas por quê? Porque cada uma exige uma condução terapêutica diferente. Se for
reacional, portanto mais próxima do normal, por assim dizer, podemos esperar uma
evolução mais favorável. Já se o quadro for do tipo melancólico, exige um atendimento
mais freqüente, mais atenção a sinais de suicídio, maior entrosamento com a equipe
médica, e sugere uma evolução mais complicada, bem como implica uma investigação
psiquiátrica do paciente em busca de episódios anteriores de transtorno depressivo
maior (SIMONETTIimonetti, 2004, p. 55).
Simonetti (2004) cita Freud que distingue as duas principais manifestações de
depressão: o luto e a melancolia. Em ambas há uma perda de um objeto de
pulsão e libido que podem ser pessoas, objetos ou ideal.
No luto há tristeza, perda de interesse pelo mundo externo, perda de
capacidade de escolher por outros objetos de amor. Existe um trabalho do ego
de redirecionar a libido do objeto perdido. Em um primeiro momento, exige uma
elaboração dessa perda, que é evidenciada pelo desinteresse a outros objetos
que não o do próprio luto. Há o recolhimento da libido direcionada ao objeto
perdido para o próprio ego. Após o trabalho de luto, a libido poderá se
direcionar a novos objetos. Ou seja, o luto é uma reação a perda do objeto.
Na melancolia, o objeto é secreto e desconhecido, “muitas vezes só existe no
imaginário do paciente” (SIMONETTIimonetti, 2004, p. 54). Assim como no luto,
há tristeza e desinteresse pelo mundo externo. A distinção da melancolia
ocorre pela presença de culpa e auto-acusação, desânimo intenso e descuido
do auto-cuidado, como alimentação e higiene. Simonetti explica que a
depressão também pode ser chamada de neurose narcísica, por um profundo
egocentrismo e pela perda da capacidade de amar. A melancolia incide sobre o
narcisismo da pessoa. Na melancolia:
A pessoa se descreve como sem valor, incapaz do que quer que seja e moralmente
condenável: recrimina-se, insulta-se, espera repulsa e punição e compadece-se de
seus familiares por estarem ligados a uma pessoa tão indigna quanto ele, e – o que é
notável- evidencia um fracasso da pulsão que obriga todo ser vivo a apegar-se à vida.
(FREUDreud, 1980. Vol. XIV apud SimonettSIMONETTIi, 2004).
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