Morte: Aspectos psicossociais
Na língua portuguesa, o termo paciente associa-se à passividade, e o doente
quando se torna paciente passa ade agir como objeto da medicina. De acordo
com Kovács (2002), nessa perspectiva, o doente deve agir passivo silencioso
frente à atuação do médico, pois o paciente não é mais visto como pessoa.
A história da medicina atravessa a história da morte. A morte deixou de ser
familiar para ser tornar medicada, envolta de conhecimentos técnicos e
científicos sobre o corpo, vida e morte. O termo clínica vem do grego, e
significa reclinar-se sobre. Havia na clínica médica outra forma de relacionar-se
com o paciente. A tecnologia afastou médicos de seus pacientes, os exames
laboratoriais e de imagem substituem às práticas mais antigas que envolviam o
toque no paciente. Por conseqüência, a relação médico-paciente afastou-se e
os relatos do doente diminuem de importância para o diagnóstico, deixando
este cada vez mais afastado e passivo frente à terapêutica proposta pelo
médico.
Essas mudanças também mudaram a forma das pessoas lidarem e
enfrentarem a morte, que era íntima e próxima do cotidiano das pessoas. Hoje
é comum, no caso dos pacientes terminais, esperar pela morte no leito
hospitalar, longe da familiaridade de seu lar.
O ambiente hospitalar nesse momento tanto pode ser um fator estressor nesse
momento, quantoou de alívio. No primeiro caso, a pessoa sente longe se de
seus objetos pessoais, sente profundamente a perdae da intimidade, do ritmo
do corpo e das excreções, que são controlados no hospital, em especial nas
UTIs. Nesse caso, a perda da intimidade e da autonomia pode provocar grande
sofrimento. Por outro lado, outras pessoas podem sentir-se acolhidas e
protegidas, em saber haver médicos e enfermeiros à disposição em caso de
emergência ou dor. Confia no saber médico e na tecnologia disponível.
Segundo Kovács (2002), a morte do outro é a possibilidade de vivenciar a
morte em vida, uma morte que não é a própria “mas é vivida como se uma
parte nossa morresse, uma parte ligada ao outro pelos vínculos vividos” (p.
153). Uma vez que a morte de si não é possível de ser vivida concretamente, é
a morte do outro, é a experiência de perda que as pessoas vivem, lembram e
elaboram:
É impossível encontrar um ser humano que nunca tenha vivido uma perda. Ela é
vivenciada conscientemente, por isso é, muitas vezes, mais temida que a própria
morte. Como esta última não pode ser vivida concretamente, a única morte experiência
da é a perda, quer concreta, quer simbólica (Kovács, 2002, p. 154).
A autora acima relata que é É o afeto e as relações entre as pessoas que são
atingidas pela morte. Ela modifica o cotidiano pelo luto e pesar, mas ,também
pelas mudanças que ocorrem no cotidiano.
Tarefas que antes eram feitas pelo que antes era feito pelo pelo falecido,e ou
com o outroa companhia dele são modificadas. O supermercado, as contas,
sentar-se a mesa, dormir, etc são exemplos banais das mudanças que ocorrem
após a morte de um familiar. . A morte modifica a dinâmica familiar, e todo
conjunto de redes de relações que o falecido participava, pois a função que
exercia terá que ser feita por outro (e nunca será igual). Toda perdae exige
uma nova organização, entretanto, as mudançass inesperadas têm um
potencial especial de desorganizar o que estava estabelecido.
A morte como perda supõe um sentimento, uma pessoa e um tempo. É a morte que
envolve, basicamente, a relação entre as pessoas. Se ocorre de maneira brusca e
inesperada tem uma potencialidade de desorganização, paralisação e impotência. As
ações do cotidiano, como falar, atravessar a rua, cuidar do outro, alimentar-se, são
matizadas pelo constrangimento do inusitado em duas situações: diante da própria
perda e diante de alguém que perdeu alguém. Embora saibamos racionalmente que a
morte é inevitável, este saber nem sempre está presente, fazendo surgir o paradoxo da
morte (in)esperada. Em casos extremos a morte invade de tal forma a vida que passa r
a fazer parte dela (Kovács, 2002, p. 154).
As UTIs dos hospitais também estão associadassociadasos à idéia de morte
iminente, além do incomodo da perda de privacidade, solidão e afastamento
dos familiares e amigos. Muitos vivenciam esse momento como “uma morte em
vida”, preferindo a morte àa uma vida de privações, dor, sofrimento e
degeneração (Kovács, 1996).
A UTI traz representações diversas. Muitas pessoas temem precisar de
cuidados intensivos da UTI por achar que nessas unidades as pessoas vão
para morrer. Outras podem sentir-se acolhidas por ter a disposição a mais alta
tecnologia médica disponível. Por se tratar de uma unidade com altos recursos
de controle vitais e de equipamentos sofisticados, esses centros podem de fato
ser o destino final dos incuráveis, e vir a ser uma espécie de morredouro.
Equipes atentas às necessidades dos pacientes, tanto do ponto de vista
biomédico quanto subjetivo podem perceber o que há de significativo no temor
ou desejo de um paciente em internar-se em uma UTI.
Torres (1983) afirma que a morte é, no século XX, sujeito ausente do discurso.
De acordo com Angerami-Camon (2003) nos últimos 50 anos, a morte tem sido
no meio das ciências humanas um tema mais discutido e debatido,
denunciando as causas da negação da morte.
No século XX, apesar da morte ser tratada como assunto interdito, foi neste
século que a preocupação em escutar os pacientes ganhou destaque através
dos estudos de Elisabeth Kübler-Ross. Por se tratar de um assunto tabu,
equipes hospitalares têm dificuldades em lidar com os temores de morte dos
pacientes e de seus familiares. Kubler-Ross acabou por se tornar uma porta-
voz das vivências dos moribundos.
Para Angerami-Camon (2003), a doença degenerativa incita a situações de
discriminação e rejeição ao paciente. Dessa forma, o paciente terminal carrega
o próprio fardo da doença e o estigma da perda da capacidade produtiva. Em
adultos, a preocupação com a saúde física associa-se aos papéis que a
pessoa exerce na própria família e comunidade, por exemplo: a pessoa que
possui o papel de provedor da família, durante o adoecimento e agravamento
da sua condição física, sofre também com as conseqüências sociais do
adoecimento.
De acordo com Kovács (2002), tratar a morte como fatalidade, evitarevitar, e
ocultar sentimentos e dor são formas de negar a morte e os sentimentos que
ela provoca. Segundo a autora, expressar sentimentos é fundamental no
processo de luto. A forma de lidar com luto e expressar a dor modificou-se ao
longo de gerações. “Cada cultura apresenta algumas prescrições de como a
morte deve ser enfrentada e quais comportamentos e rituais que devem ser
cumpridos pelos enlutados” (Kovács, 2002, p. 154).
Ariès (1977) explica que na Idade Média as manifestações dos sentimentos
diante da perda eram autorizadas e com o desenvolvimento do poder da Igreja
uma forma mais contida de manifestação do luto passou a ser exigida, estando
a Igreja no controle dos rituais e comportamento adequando. Já o século XIX, a
morte romântica trás a idéia de ruptura insuportável por representar a morte do
outro. A tragédia Romeu e Julieta é um grande exemplo desse tipo de
representação da morte. Esse século foi marcado por grande explosão e
expressão de sentimentos, tristeza, dor; a morte era associada à idéia de
morrer de amor.
O século XX é marcado pela representação de “morte invertida”, associada à
vergonha e fracasso. “Há uma supressão do luto, a sociedade condena a
expressão e a vivencia da dor, atribuindo-lhes uma qualidade de fraqueza”
(Kovács, 2002, p.155). A sociedade capitalista não suporta ver os sinais da
morte, pois a morte não condiz com o ideal de produção. A morte é disfarçada,
as crianças são afastadas e ocultam a morte a elas. Por esse motivo, a
negação da morte e manifestações de luto e dor, que “sabe-se que muitas
doenças psíquicas podem estar relacionadas com um processo de luto mal
elaborado” (Kovács, 2002, p.155).
A morte é uma certeza universal. Não temos condições de evitá-la. A certeza
de morte empurra a ciência na tentativa de prolongar a vida.
A angústia dessa certeza entre outras coisas nos fez decerto empurrar com as
ferramentas da ciência para mais longe a morte, aumentando como nunca a
expectativa de vida das pessoas. E fizemos isso com uma pertinácia espantosa. É um
fato eloqüente do mal estar diante da limitação o esforço intelectual e prático dirigido
exclusivamente para este fim: afastar a morte o máximo possível, tirá-la de nossos
olhos. E tudo isso para vivermos mais e melhor (Reis, 2005).
Muitos adultos possuem a fantasia de reversibilidade da morte, afinal alguns
suicidas possuem a fantasia de “morrer só um pouco”, fazer o outro sentir sua
falta ou sentir-se culpado. (KOVÁCS, 2002).
Não há idade para a morte. Ela espreita a todos, em qualquer idade. Na velhice
têm-se a consciência que se não ocorreu antes, logo estão próximos da morte.
A morte é parte da vida, processo final do desenvolvimento humano e
inexorável para todos. Se por um lado o avanço da medicina possibilitou o
incrível avanço da expectativa de vida e a cura de várias doenças que
provocavam a morte em larga escala; por outro lado, a medicina também pode
promover um prolongamento do estado terminal frente a um adoecer avançado
e morte inevitável.
Como “ninguém volta pra contar” (KOVÁCS, 2002, p.1) a morte está
freqüentemente associada ao mistério poder e força. A morte de preto
carregando uma foice, dá a idéia de corte, poder e inimiga perigosa. Outra
imagem associada à morte é a “da velhice, representada por uma velha
encarquilhada, magra, ossuda, sem dentes, feia e fedida. É uma visão que nos
causa repulsa e terror” (p. .9).
Entretanto, o limite imposto pela morte promove crescimento, ensina sobre as
dores e os afetos. “Tapar o sol com a peneira” como se diz popularmente, não
resolve nem ensina as pessoas e respeitarem o inevitável, que todos
morreremos um dia. Por outro lado, o saber da finitude no empuxa a viver a
vida. Ao fim da vida, ou em qualquer momento dela dada a imprevisibilidade da
morte, podemos afirmar que esta que vivemos uma vida bem vivida ou foi um
“desperdício”?
Existem vários mitos dos quais homens desafiam a morte e vencem, nestes há
uma clara percepção de busca da imortalidade. KOVÁCS (2002) exemplifica
com Em geral, os mitos e lendas em que essa atitude é simbolizada pela morte
do dragão ou monstro. Isto é, os heróis conseguem os que os mortais não
podem. Dessa forma essas representações demonstram a consciência de
finitude, embora seja também um desejo de obnubilação da consciência da
morte (KOVÁCS, 2002)..
A autora acima relata que Para KOVÁCS (2002), confundimos busca de vida
eterna com juventude eterna:
Não nos iludamos, pois o que buscamos não é a vida eterna e sim a juventude
eterna com seus prazeres, força, beleza e não a velhice eterna com suas
perdas, feiúra, dores. Quantos “heróis” perderam a vida na busca da
imortalidade! Não acreditamos em nossa própria morte, agimos como se ela
não existisse, fazemos planos para o futuro, criamos obras e filhos,
imaginamos que estes perpetuarão o nosso ser. ( KOVACS, 2002, p.02)
A morte é parte da vida, do desenvolvimento humano. Embora seja necessário
ter consciência dela, também “não podemos viver sobre a esmagadora
‘presença’ da morte” (p. 02) (KOVÁCS, 2002 p.2). Portanto, se oculta através
de mecanismos culturais e psicológicos de defesa (negação, repressão,
intelectualização e deslocamento). A morte é posta “em parênteses”, está
restrita/ restringida; ora nos protegemos do medo da morte, ora ficamos
acuados e deixamos de “viver a vida” (KOVÁCS, 2002).
No século XX, a morte passa por um processo de “apagamento”, se torna
escondida, vergonhosa, e a sociedade retira a morte da pessoa: “A morte não
pertence mais à pessoa, tira-se a sua responsabilidade e depois a sua
consciência. A sociedade atual expulsou a morte para proteger a vida” (Kovács,
2002, p.39). De certa forma, a autora conseguiu explicitar o lema da sociedade
atual, proteger a vida a todo custo e, no processo, retirar a responsabilidade e
a consciência da morte e seus vestígios... Assim, a autora continua:
O grande valor do século é o de dar a impressão que “nada mudou”, a morte não deve
ser percebida. A boa morte atual é a que era mais temida na Antiguidade, a morte
repentina, não percebida. A “boa” é aquela em que não se sabe se o sujeito morreu ou
não. (Kovács, 2002, p.39)
Outro valor significativo que a morte no século XX está associada é o da morte
como impotência, imperícia ou fracasso, ao contrário de perceber a morte
como um fenômeno natural. Certamente, esses valores estão vinculados aos
avanços da medicina e, sobretudo, ao processo de medicalização da vida e da
morte. “O triunfo da medicalização está, justamente, em manter a doença e a
morte na ignorância e no silêncio” (Kovács, 2002, p.39).
O local da morte passa a ser o hospital. Uma vez a morte medicada, ela deve
ser escondida, e a casa e o lar não permitem a essa possibilidade. O hospital
retira a “inconveniência” da morte, seus parentes e amigos não mais
presenciam seu ente querido morrer, ou a feiúra dos moribundos. O hospital
possui dispositivos vários que oculta o sofrimento dos familiares e a morte:
O local da morte é transferido do lar para o hospital. Tudo isso torna difícil suportar a
proximidade com a doença. No século XX a maioria das pessoas não vê os parentes
morrerem. O hospital é conveniente, pois esconde a repugnância e os aspectos
sórdidos ligados à doença. A família também fica afastada para não incomodar o
silêncio dos hospitais. Dessa forma, não atrapalha o trabalho dos médicos e não torna
visível a presença da morte, por meio de lamentações, choros ou questionamentos
(KOVÁCS, 2002, p. 39).
A morte nunca foi tão higiênica como nos dias atuais (Elias, 2001). De acordo
com Becker (2010), os excrementos e os odores fétidos são uma constante
lembrança de nosso aspecto animal, de que, portanto, há aspectos em nosso
corpo e de nossa vida que não podemos controlar, em especial a morte.
O higienismo típico do hospital é uma forma típica de negar a morte. Os que
estão para morrer vivem de forma massacrante essa realidade de finitude e
incapacidade de controlar o próprio futuro. Cuidar da higiene do paciente é uma
forma importante de manter sob controle os odores que a nossa cultura rejeita.
E rejeita, porque esses odores fazem lembrar aspectos incontroláveis da vida.
Uma das mais sofridas forma de morte é quando paciente exala odores de
necrose. Esses odores causam repulsa, e por isso faz com que os pacientes
sintam-se mais isolados e abandonados, por seus familiares e cuidadores do
hospital.
A assepsia hospitalar permite manter sob certo controle vírus e bactérias que
podem potencialmente tornar-se epidêmicas no ambiente hospitalar. As
normas de higiene são necessárias são necessárias tanto na prevenção quanto
no cuidado aos doentes. Tem-se certo controle científico de possíveis causas
de morte. O controle obsessivo da higiene serve para fins de saúde pública,
mas também permite às sociedades atuais vivenciar uma forma de fantasia de
controle da morte e de suas características mais repulsivas.
Para Chiattone (in Camon (Org), 2003, p. 75), a sociedade capitalista impõe
uma mudança radical da morte:
O homem passa a ser, essencialmente, um Ser consumista, caracterizando-se por um
apego extremo a posições, pessoas e bens materiais como uma suposta forma de
controle e dominação, proporcionando a sensação (falsa) de poder e superioridade
sobre a natureza, objetos, pessoas e principalmente à vida. Dessa forma, se a morte
for considerada, o Homem poderá “eternamente” dominar e controlar todas as coisas,
todas as pessoas e conservar tudo que tem. (in Camon, 2003, p. 75)
No século XX a morte é escondida e negada veementemente, o luto e suas
manifestações são um inconveniente por deixar à mostra a dor e a existência
da morte. Nesse século, há um esforço de suprimir o luto, ou peno menos
escondê-lo ao máximo. A sociedade não suporta a morte, ou seus sinais, e
exige dos enlutados um controle, um abreviamento das suas manifestações de
dor. Assim, contundente, mostra Kovács:
O hospital é conveniente, pois esconde a repugnância e os aspectos sórdidos ligados à
doença. A família também fica afastada para não incomodar o silêncio dos hospitais.
Dessa forma, não atrapalha o trabalho dos médicos e não torna visível a presença da
morte, por meio de lamentações, choros ou questionamentos. (Kovács, 2002, p. 39).
Uma vez que a sociedade nega veementemente a morte e suas nuances, o
doente terminal é a face temida, o doente incomoda tanto quanto sua doença.
Atitudes de esquiva frente ao doente nada mais são do que a expressão do
temor da morte. Somam-se a esse cenário o próprio doente, seus medos,
atitudes e crenças.
Os profissionais de saúde temem o doente terminal nas suas manifestações
que explicitam o adoecer e morrer: “pelas suas atitudes, seja de revolta, de dor
ou de exigências, seja porque se “viram para parede”, dão as costas à vida,
desistem de viver, ou melhor, de morrer aos poucos” (KOVÁCSovács, 2002, p.
39).
A morte do paciente é vivenciada pela equipe de saúde como um fracasso ou
erro. Além disto, muitos médicos mostram dificuldades em comunicar o óbito a
família, optando pela frieza e indiferença quando são forçados a enfrentar a
realidade da morte. (ROMANOomano, 2008)
A conseqüência natural no século XX da negação da morte é a inexistência ou
abreviação do luto e suas manifestações. É natural esperar que o psicólogo
hospitalar facilite a expressão de sentimentos em relação ao ente querido e o
luto da perda deste. Se a cultura da sociedade atual não suporta as
manifestações de dor e sofrimento, onde e como o familiar poderá compartilhar
seu pesar? As expressões de conforto e consolo comumente mostram o a
necessidade suprimir as manifestações do luto.
Chiattone (2003) relata que (in Camon, 2003) antigamente os velórios eram na
casa do morto, com cantos e orações que facilitavam o choro e a elaboração
do Luto. Atualmente, os velórios não são mais na casa do morto e são
providenciados o mais rápido possível. Além disso, demonstrações de pesar e
lágrimas são desencorajados com expressões “seja forte”, “foi melhor assim”.
Além disso, o corpo do morto é preparado de forma a perder suas características de
morto. “Parece que está vivo”, “parece que está dormindo”, “até parece que vai
levantar” são expressões comumente ouvidas nos velórios. O estabelecimento de
prazos para a missa de 7º dia ou 30 dias é medida que procura circunscrever e limitar,
de forma negativa, o processo de luto. (CHIATTONEhiattone in CAMONamon, 2003, p.
75 ).
Hoje a morte não é apenas um evento biológico inevitável, é o momento em
que tecnologias sofisticadas são aplicadas, a morte tem seus aspectos
relacionados ao sistema nervoso central (morte cerebral), a morte dos tecidos e
órgãos, às mudanças bioquímicas e celulares. A morte se confunde no
emaranhado de fios e máquinas, exames e sentimentos humanos.
De acordo com Kovács (2002, p.40):
O tempo da morte se modifica, não é mais o momento de separação do corpo e da
alma. Nos tempos atuais, esse tempo se prolonga indefinidamente. A morte foi dividida
em cerebral, biológica e celular. São vários aparelhos destinados a medir e prolongar a
vida. O momento da morte é muitas vezes um acordo feito entre a família e o médico
(2002, p.40)..
No fim da vida, é um momento de grandes questionamentos morais e éticos. É
baseado no sofrimento dos moribundos que questões sobre a eutanásia, uso
ou não de esforços heróicos de prolongamento da vida, e o viver/morrer com
dignidade afloram. As implicações éticas do prolongamento da vida são muitas.
O desejo de cura e a possibilidade de cura muitas vezes confundem-se em
matizes de verdades e meias-verdades, como uma grande área cinzenta do
nosso conhecimento, do qual a questão primordial é a nossa capacidade de
prever a morte ou possibilidade de cura. Com a tecnologia existente de
prolongamento da vida por meio de aparelhos que substituem funções vitais
como a respiração, monitoram e controlam o coração podem levar um paciente
a beira da morte viver sob estas condições por meses. Segundo Kovács (2002,
p. 40) “a sociedade ocidental insiste no caráter acidental da morte: acidentes,
doenças, infecções, velhice adiada (...). A morte é sempre um assombro”.
Segundo Ziegler (1971) (1971 apud Kovács, 2002) a morte é uma questão de
classes, e as classes dominantes estabelecem o ideal de morte e ritos
funerários. A pompa da indúustria funerária impõem valores de uma cultura
capitalista que não é questionada. (apud KOVÁCS, 2002). A morte torna-se um
comércio de terrenos melhores nos cemitérios, de caixões adornados,
empresas para cuidaram do velório e da preparação do corpo do morto. Morrer
é caro: impostos, caixão, cemitério, velório...
Nesse sentido, Ziegler o autor (1971 apud Kovács, 2002, p. 41) mostra a força
da desigualdade social também na expectativa de vida, se por um lado pobres
e operários submetidos a condições insalubres, de desnutrição e vários fatores
risco possuem menor tempo de vida; por outro, pacientes com planos de
saúde, menores riscos ocupacionais, condições de moradia melhores,
possuem sobrevida longa e podem estar submetidos a prolongamentos inúteis
nos casos dos moribundos.
A morte tem aspectos burocráticos bastante relevantes. Ela é determinada por
médicos, segundo critérios e parâmetros somáticos e cerebrais, e somente o
médico confirmar o momento e emitir o atestado de óbito. Este documento é
necessário para continuidade dos ritos funerários, e aspectos legais do fim vida
como as heranças.
Ziegler (1971) (1971 apud Kovács, 2002) chama os médicos de tanatocratas:
“pois ele não só contata a morte, como a provoca, é seu senhor. Não registra
mais a hora final de uma vida, fica-a segundo a sua escolha” (apud KOVÁCS,
2002,Kovács, 2002. p.41). O autor apresenta situações dramáticas, dos quais
hospitais não permitem familiares visitar o paciente sob o risco de
contaminação e perturbação do repouso do paciente. Ironicamente, este
repouso é constantemente interrompido por procedimentos médicos e de
enfermagem..
Segundo Pessini (1997, in Camon, 20032002, p. ? 88 ), 80% das mortes dos
Estados Unidos ocorrem nos hospitais. “é a chamada morte invertida. Ela
escondida, vergonhosa, como se fosse o sexo na era vitoriana. A boa morte
atual é a que era a mais temida na Antiguidade, a morte repentina” (in CAMON,
2002, p. 88).
Ziegler (1971) (1971 apud Kovács, 2002) aponta que a maioria das pessoas
prefere uma morte repentina, como um ataque cardíaco, que, paradoxalmente,
não ocorrem em hospitais onde medidas de intervenção seriam rapidamente
colocadas em prática para salvar o paciente (apud Kovács, 2002)..
É interessante notar que evitar que esse desejo demonstra e confirma o medo
da morte e principalmente do morrer, uma vez que o morrer longo e sofrido
aumenta o período de consciência do inevitável acrescido do prolongamento da
dor e sofrimento. Ademais, as fantasias de morrer repentino e de preferência
dormindo, evita o próprio hospital que está associado à morte.
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