Fases do Luto: Raiva/ Revolta



A raiva é um sentimento predominante em um segundo momento, quando a
negação é superada. A pessoa se pergunta por que a doença aconteceu com
ela, é comum questionar-se porque não com outra pessoa. A raiva demonstra a
impotência e a falta de controle frente à doença (KUBLER-ROSS, 2008).

A posição de revolta inicia quando o paciente reconhece a sua doença e
gravidade, mas mostra-se revoltado com a condição de doente. A frase
característica das pessoas em posição de revolta é “isto não é justo”. O
sentimento associado é de frustração, uma vez que “a doença é um evento
com alto poder de frustração” (SIMONETTIimonetti, 2004, p. 45).

A doença frustra o princípio do prazer ao introduzir a
dor e o desprazer, também frustra a onipotência infantil, caracterizado pela
crença que o mundo manifesta-se conforme o próprio desejo. A doença
também tem seu poder de frustração associado às perdas da autonomia, da
rotina, da liberdade, dos planos para o futuro, dentre outras limitações
associadas à doença. Dessa forma, a doença é “mais uma força de castração a
que o ser humano é submetido em sua jornada” (SIMONETTI, 2004, p.
45).

A doença e a hospitalização impossibilitam a pessoa para o trabalho. Na nossa
cultura, que valoriza elevadamente a capacidade produtiva, essa restrição ao
exercício do trabalho é muito frustrante. Além disso, para muitos o trabalho é
fonte de prazer e também de fuga dos problemas pessoais, assim, a perda
temporária ou permanente de trabalhar eleva a irritação da pessoa frente à
doença (SIMONETTimonetti, 2004).

É muito difícil, do ponto de vista da família e do pessoal hospitalar, lidar com o estágio
da revolta, principalmente pelo fato da projeção que o paciente realiza, ou seja, projeta
toda esta raiva ao ambiente hospitalar, à equipe de saúde e aos familiares. Na maioria
das vezes, a equipe de enfermagem é alvo constante da raiva dos pacientes. As visitas
familiares são recebidas com pouco entusiasmo e sem expectativas, transformando em
penoso o encontro (SANTOS e SEBASTIANI in CAMON, Santos e Sebastiani in
Camon, 2003).

O psicólogo deve estar atento ao efeito que o paciente em posição de revolta
provoca na equipe e nos familiares, podendo gerar irritação e afastamento das
pessoas ao doente. O isolamento da pessoa adoecida, piora a qualidade das
relações e a revolta do doente. Simonetti (2004, p.47 e 48) exemplifica algumas
situações:

Ocorre que é mesmo muito mais difícil lidar com pacientes na revolta do que na
negação em razão de seu comportamento querelante, ruidoso, disruptivo até. A esses
motivos deve-se somar o fato de que nunca é fácil, para a equipe, perceber que aquela
agressividade que lhe está sendo dirigida nada tem de pessoal. O psicólogo, escorado
em seus conhecimentos sobre a transferência e acting out deve, idealmente, estar
preparado tanto para lidar com um paciente assim, bem como para orientar e dar
suporte à equipe. (SIMONETTI, 2004, p.47 e 48).

A raiva, a irritação e a revolta demonstram que a pessoa está em luta. É um
movimento importante no enfrentamento do adoecer, por outro lado, uma
agitação não direcionada não é produtiva e não permite esse movimento contra
a doença. Também, se a raiva é persistente, deve estar atento a possibilidade
de estar substituindo ou ocultando alguma outra emoção. De acordo com
Simonetti (2004, p.45):

É natural uma pessoa sentir raiva diante da doença, mas se ela passa o tempo todo
sentindo raiva, se essa raiva se torna uma condição permanente, é hora de nos
perguntarmos: por quê? Com muita freqüência uma raiva desse tipo está a serviço de
evitar a angústia e a tristeza. De modo similar, se a tristeza se torna permanente, como
veremos na depressão, geralmente envolve uma dificuldade em lidar com a raiva.
Nesse campo, o trabalho do psicólogo hospitalar é facilitar a expressão das emoções
evitadas (...)(SIMONETTI,2004, p.45).

Santos e Sebastiani (in CAMON, 2003) afirmam que a reação dos
parentes em seu choro e pesar nem sempre conseguem colocar-se no lugar do
paciente, e compreender de onde vem essa raiva.

BECKER, Ernest. A Negação da Morte: Uma abordagem psicológica sobre a
finitude Humana. 4ª Edição. Editora Record: Rio de Janeiro, 2010.
CARVALHO, M. V. B.; MERIGHI, M. A. B. O Cuidar no Processo de Morrer na
Percepção de Mulheres com Câncer: uma Atitude Fenomenológica. Revista
Latino-Americana de Enfermagem. Nov.-Dez. Vol. 13. N° 6. 2005 (p.951-959).
Cassorla, R. S. (2002). Reflexões sobre a Psicanálise e Morte. In: KOVÁCS, M.
J., Morte e Desenvolvimento Humano. São Paulo: Casa do Psicólogo.
CERVO, Amado Luiz & BERVIAN, Pedro Alcino. Metodologia Científica: para
uso dos estudantes universitários. 2ª. Ed. São Paulo, Mcgraw-Hill do Brasil,1978.
Chiattone, H. B. C. A criança e a Morte. In: Camon, V. A A. org.(2003) E a
Psicologia Entrou no Hospital... São Paulo: Pioneira Tompson Learning.
CHIATTONE, H. B. de C. A significação da Psicologia no Contexto Hospitalar.
IN: Angerami-Cammon, V.(Org.) Psicologia da Saúde: Um Novo Significado
Para a Prática Clínica. Ed. Pioneira Thompson Learning. São Paulo. 2000.
GUTIERREZ, Pilar L.. O que é o paciente terminal?. Rev. Assoc. Med. Bras.
[online]. 2001, vol.47, n.2, pp. 92-92. Disponível em:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-
42302001000200010
KARSH, U. M. Idosos Dependentes: Famílias e Cuidadores. Caderno de Saúde
Pública. Rio de Janeiro, Mai-jun, 2003.
Kovács, M. J. (2002). Atitudes diante da Morte - Visão histórica, Social e
Cultural. In: M. J. Kovács, Medo da Morte. São Paulo: Casa do Psicólogo.
Kovács, M. J. (2002). Medo da Morte. In: M. J. Kovács, Morte e
Desenvolvimento Humano. São Paulo: Casa do Psicólogo.
Kovács, M. J. (2002). Morte, Separação, perdas, o Processo de Luto. In: M. J.
Kovács, Morte e Desenvolvimento Humano. São Paulo: Casa do Psicólogo.
Kovács, M. J. (2002). Pacientes terminais e a questão da morte In: M. J.
Kovács, Morte e Desenvolvimento Humano. São Paulo: Casa do Psicólogo.
Kovács, M. J. (2002). Representações de Morte. In: M. J. Kovács, Morte e
Desenvolvimento Humano. São Paulo: Casa do Psicólogo.
KÓVACS, M.J. Educação para a Morte: temas e reflexões. São Paulo: Casa do
Psicólogo / Fapesp. (2003).
LAURENTI, R. JORGE, M. H. P. M.; GOTLIEB, S. L. D. A Confiabilidade dos
Dados de Mortalidade e Morbidade por Doenças Crônicas Não-Transmissíveis.
Ciência e Saúde Coletiva. Vol.9. N° 4. 2004.
MARTINS, M. R. I.; CESARINO, C.B. Qualidade de Vida de pessoas com
Doença Renal Crônica em Tratamento Hemodialítico. Revista Latino America
de Enfermagem. Set- Out.Vol 13. N°5. 2005
MARTNS,I. S. at all. Doenças cardiovasculares aertocleróticas, dislipidemias,
hipertensão, obesidade e diabetes melito em população da área metropolitana
da região sudeste do Brasil. I- Metodologia da pesquisa. Revista de Saúde
Pública, Vol 27. N. 4. 1993.
MELO, A.G.C e CAMPONERO, R. Cuidados Paliativos- Abordagem Contínua e
Integral. IN: SANTOS, F.S. Cuidados Paliativos: discutindo a vida a morte e o
morrer . São Paulo. Ed. ATheneu. 2009
MENEZES, R. A. Um Modelo para Morrer: última etapa na construção social
contemporânea na pessoa? Campos 3, 2003.
MORITZ, R. D., at all. 1° Fórum do Grupo de Estudos do Fim da Vida do Cone
Sul: Proposta para atendimento do paciente portador de doença terminal
internado em UTI. Revista Brasileira de Terapia Intensiva. Porto Alegre. 2009.
OLIVEIRA, S. N.; BIANECK, D. V. Sida e Morte: Algumas Reflexões a Partir da
Psicanálise. Revista AdVerbum. Vol. 3. N° 2. Ago- Dez. 2008.
PEREIRA, A. M. V. B.; SCHINEIDER, R. H.; SCHWANKE, C. H. A. Geriatria,
uma Especialidade centenária. Scientia Médica. Porto Alegre. V. 19. N. 4
Out/Nov. 2009.
Perez, G. H. A Unidade de Emergência. In: Romano, B. W. Manual de
Psicologia Clínica para Hospitais. São Paulo: Casa do Psicólogo. 2008.
Pessini, L. Distanásia. Até quando investir sem agradir?. In: Camon, V. A A.
org.(2002) A Ética na Saúde. São Paulo: Pioneira Tompson Learning.
PIVA, J. P.;CARVALHO, P. R. A. Considerações éticas nos cuidados médicos
do paciente terminal. Revista Bioética. Vol 1. N°2. 1993.
SHRUAMM, F. R. Morte e Finitude em Nossa Sociedade: implicações no
ensino dos cuidados paliativos. Revista Brasileira de Cancerologia. 2002.
Simonetti, A. Manual de Psicologia Hospitalar: o mapa da doença. São Paulo:
Casa do Psicólogo. 2004.
Torres, A. O Paciente em Estado Crítico. In: Romano, B. W. Manual de
Psicologia Clínica para Hospitais. São Paulo: Casa do Psicólogo. 2008.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Fases do Paciente Terminal

Fases do Luto : Negação e isolamento