Escuto com certa frequência queixas relacionadas à ansiedade e ao medo. Muitas vezes se manifestam pelo medo de errar, de ousar, de brincar, ou mesmo no extremo medo de sair de casa.
O medo é um sentimento inerente aos animais, trata-se de uma defesa para a sobrevivência.
Na natureza observamos animais fazendo pose de “grande”,
rangendo e mostrando os dentes e garras, preparando-se para a luta contra o inimigo. Outra estratégia de sobrevivência é “fingir-se de morto”, permanecendo imóvel.Somos animais sociais e intelectuais, nossa natureza humana se faz pela interação e cuidado por outros seres-humanos,
de forma que mantemos nossos impulsos instintivos, de reação fisiológica.
Mas nossas reações também são moldadas pela natureza cultural que estamos inseridos.
Nossos medos, já não são tão primitivos quanto em seres que vivem numa natureza selvagem.
Mas nosso impulso de vida, de criar, de produzir e sobreviver se mantém.
Portanto, nossos medos adultos envolvem medo de acidentes, violência urbana e contas a pagar e sobrevivência profissional.
Embora as reações fisiológicas se mantenham (hormônios do stress, como adrenalina,noradrenalina e cortisol), o comportamento humano frente ao stress e medo são sociais e interacionais.Temos medo de enfrentar situações sociais.Os medos tem uma caraterística protetora, de sinal de risco, tal como a dor. Quando sentimos dor ao queimar a mão, instintivamente a retiramos sem pensar, de forma a proteger nosso corpo. Pela dor, passamos a temer o fogo. O medo, compreendido de seu significado, nos permite raciocinar e aprender com as experiências e observações.Quem vive próximo a mar e rios perigosos, costuma falar que só se afoga quem sabe nadar, porque se arrisca a visitar áreas mais profundas. Por outro lado, quem não sabe nadar não goza do prazer de brincar com as águas. O medo certamente serviu evolutivamente a nos proteger da morte, porém o medo incompreendido e não dominado, não nos permite aproveitar a vida.A vida real é cheia de riscos e intempéries. A vã tentativa de controlar todas variáveis nos impede de explorar mundo e aprender com ele. Não existe vida sem risco. Talvez, os medos excessivos estejam relacionados à inibição de aproveitar a vida. E o seu oposto (a busca incessante por situações cada vez mais arriscadas) seja uma tentativa um tanto frágil de se sentir real.Viver depende de um equilíbrio entre riscos, proteções, aprendizagens e busca por um sentimento de segurança que se faz de fora para dentro (pela segurança promovida pelo ambiente) e sentida de dentro para fora (como conquista do senso de segurança). Quanto mais aprendemos com a vida, mais podemos ousar caminhos mais distantes da segurança primordial, oriunda dos cuidados primitivos e familiares.
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