O processo do adoecer e do morrer
Segundo Kovács (2002), a resposta psicológica mais comum diante da morte é
o medo. O medo é universal, atinge todas as faixas etáriasestarias e sexo,
independe de condição sócio-econômica ou credo religioso.
E evidente essa constatação uma vez que há em nossa sociedade há a um
negação coletiva da morte, que é vista como um tabu. Em geral, o
desconhecido provoca medo e ansiedades.
Para Becker (2010) (2010) é que o terror da morte é universal, de tal forma que
a humanidade busca evitar a fatalidade da morte por meio da negação. Para o
autor, “de todas as coisas que movem o homem, uma das principais é o seu
terror da morte” ( p. 31.).
Kovács (2002),citando Feifel e Nagy (1981), citandos por Kovács (2002),
afirmam que a ansiedade é um “estado geral que precede uma preocupação
mais específica do homem com a morte”. A ansiedade distingue-se do medo
pela característica dse se r manifestar de modo difuso, ao contrário do medo,
que possui um objeto específico. A autoraKovács (2002) afirma que pessoas
com mais ansiedade apresentam maior medo da morte, pois o medo evoca a
ansiedade.
Embora a criança não possua a idéia abstrata de morte, Becker (2010) propõe
que a ansiedade primária da criança, privada dos cuidados maternos, chamada
de ansiedade de perda do objeto, seja uma forma orgânica, um medo natural
de aniquilamento. Posteriormente, a repressão do terror da morte torna-se um
mecanismo psicológico de autopreservação. O esquecimento da morte na
consciência alimenta o narcisismo, ainda na infância, que permite criar a
fantasia de imortalidade.
Percebe-se na sociedade um medo generalizado da morte, visível nas formas
de negação. Uma das mais significativas e com grandes implicações éticas é
justamente o prolongamento do processo de morrer. Assim, as pessoas que
mais temem a morte tentem a negá-la e paradoxalmente, provocar um grande
desgaste e sofrimento para as pessoas que não há mais possibilidade de
salvar a vida. Há em toda a sociedade um desejo de afastar para longe a morte
e possível heroicamente vencer a morte.
Nesse sentido, a medicina é depositária destas fantasias heróicas no qual é
possível vencer a morte. Tanto pacientes, quanto familiares desejam que o
médico consiga vencer a morte. Nesta fantasia, nem sempre se percebe que
há um momento na qual não mais é possível reverter o processo inevitável de
finitude humana.
Neste momento, quando o processo inevitável de morrer impõe-se, ou o
caminho do longo e sofrido processo de morte tomará curso, ou aceita-sese
aceita que trata-sese trata de processo de morte normal, buscando-se o alívio
do sofrimento.
Num primeiro momento, é comum negar a morte como mecanismo de defesa
psíquico. Entretanto, quando não mais é possível negar a finitude próxima, o
doente teme ser abandonado, não receber cuidados e atenção.
É comum entre profissionais de saúde, crer o mais adequado no tratamento ao
paciente é afastar a possibilidade de morte iminente a todo custo. Percebe-se
neste caso, que trata-se da angustia do profissional em aceitar a realidade da
morte, que nega, afasta e impede o máximo que puder o evento temido. Assim,
é possível que processos distanásicos ocorram justamente pela dificuldade de
reconhecer o momento em que a morte de deixa de ser um inimigo a ser
vencido e passa a se tornar uma possibilidade de alívio de um sofrimento longo
e intenso.
O medo da perda da vida em geral está associado ao medo de desconforto
físico, dor, falta de ar, de ser abandonado, morrer sozinho ou mesmo provocar
sofrimento as pessoas queridas que sobreviverão.
A morte e um acontecimento que desestabiliza a fantasia de certeza de futuro.
Todas pessoas vivenciam essa fantasia, que não deixa de ser um forma de
negação da morte. É essa fantasia que permite as pessoas a fazerem planos
futuros, como planejar o que fazer no dia seguinte, quando comprar um imóvel,
ter filhos, trabalhar, etc. Essa incerteza quanto ao quanto ao que ocorre no
momento da morte e após ela provoca um profundo sentimento de desamparo.
As pessoas temem tanto o período próximo a morte, quanto o que ocorrerá
após o fato. A espiritualidade e as crenças religiosas, em geral promovem um
alívio do temor quanto a vida após a morte, por exemplo, a ideia de paraíso e
reencarnação.
Kastenbaum (1983 in KOVÁCSovács, 2002), explica que se pode considerar o
medo da própria morte (A), ou pelo medo da morte do outro (B). Considerando
o temor da própria morte relacionamos com três aspectos: medo de morrer;
medo do que vem após a morte e medo da extinção.
As crenças religiosas são essenciais nesse momento. A fé promove alivio
espiritual e garante certa tranqüilidade. Não se trata de possuir ou não um
religião, freqüentar ou não igrejas e praticar ritos religiosos. A fé e capaz de
modificar estados psicológicos, por meio do conforto espiritual e oferecer
sentido à morte.
Atualmente, o hospital é o local em que se confirma a morte, e que há no
imaginário cultural meios de controlar e medicalizar os momentos finais. Não
devemos nos esquecer também, que hoje a medicina conseguiu aumentar a
expectativa de vida das populações e adiar a vida de muitos moribundos com
as tecnologias de suporte básico à vida (respiração e de controle cardíacos).
Pode-se afirmar que a manifestação do medo será diferente no adulto e na
criança. Daí, a crença comum de que crianças precisam ser poupadas da
experiência mortal. Ao esconder a morte da criança, o adulto pressupõe que
por se tratar de ser imaturo, a criança não terá condições psíquicas de lidar
com a morte.
“Segundo Wahl (1959) o medo da morte está muitas vezes relacionado ao
medo da castração” (KOCÁCS, 2002. p. 23). Assim, uma vez passado o
período edipiano, as crianças associam o medo da morte às vivencias
edipianas e o medo da castração. Associam à morte aos sentimentos
vivenciados no período do Édipo: culpa, desejos destrutivos, raiva, frustração
em relação aos pais.
Afinal, nesse período, a socialização leva as crianças a vivenciarem frustrações
aos seus desejos e, por conseqüência, algumas delas vivenciam desejo de
morte contra aqueles que são responsáveis por essas frustrações. Associada
e ao mesmo tempo, a criança vivencia culpa e medo de que seus desejos se
realizem; o que pode levar a quadros patológicos de fobia.
Do ponto de vista psicanalítico, não e possível temer a morte em si, pois esta e
uma experiência não vivenciada. Neste caso, a ideia de morte esta associada à
vivência de castração, de impossibilidade e perdas. Nem a criança ou o adulto
têm a morte para o iInconsciente. A idéia de morte é construída a partir de
experiências vitais no desenvolvimento, tanto por perdas reais (pessoais,
animais de estimação, etc.) quanto simbólicas (a infância, o poder, o amor,
etc).
A criança sente a morte do adulto como um abandono, gerando sensações ou
reações de raiva e frustração. Assim, a morte abala o sentimento de
onipotência infantil, pois a criança vê o adulto como forte e poderoso em
contraponto a criança que é frágil. E o sentimento de culpa está presente, por
temer ser responsável pela morte do adulto.
Ao privar a criança de explicações sobre a morte, o adulto não protege a
criança da morte. Apenas nega para si próprio de que a criança percebe que a
morte se faz presente. A criança percebe a ausência. Sem explicações do
mundo adulto, a criança sofre o luto sozinha e desamparada. Muitas vezes, o
medo do adulto em lidar com a morte será percebido de alguma forma pela
criança; como a criança sente-se frágil em relação ao adulto, a reação do
adulto contribuirá com a forma com que a criança manifesta os próprios
temores na situação.
Segundo Kovács (2002), o homem possui dois medos fundamentais e
relacionados: o medo da vida e o medo da morte. O medo da vida se vincula
ao medo da realização, da individualização e, portanto, está propenso à
destruição. Por isso, o indivíduo está vulnerável a acidentes e deslizes. A
autora cita Lowen e explicita o paradoxo que vivendo plenamente as emoções,
fica mais consciente da morte e do desejo de morrer, e por outro lado, para não
sofrer, as pessoas amortecem suas emoções, ficam com menos capacidade de
sentir e também de viver. “Segundo Lowen, toda tensão crônica no corpo
decorre de um medo da vida, medo de se soltar, um medo de ser”, cita Kovács
(2002, p. 26).
ParaSegundo Becker (2010), o homem é impulsionado pelo seu medo diante a
morte, levado a uma frenética atividade e criação, ou uma atitude de heroísmo,
um agir que nega a morte, o qual o autor chama de “mentira vital”. Afinal, se
todos fossem conscientes da morte a todo o momento, levaria ao oposto, a
uma paralisação.
Para o autor, o heroísmo humano é um reflexo do terror da morte. Da coragem
mais admirada é a capacidade de enfrentar a morte. No século XIX, “o herói
era o homem que podia entrar no mundo espiritual, no mundo dos mortos, e
voltar vivo” (BECKERecker, 2010, p. 32).
Doenças também podem desencadear o medo da morte. A neurose produz
sintomas que reduzem a qualidade de vida com objetivo de evitar a morte.
Esse comportamento paradoxalmente diminui a ação do individuo no mundo e
“mata” simbolicamente sua vida, pois vive como se estivesse morto. De acordo
com Becker, o masoquismo pode ser uma forma de afastar a angústia de vida
e morte.
Carvalho (1996) (in Bromberg, Kovács, M. J. de Carvalho e A.de Carvalho,
1996) afirma que há um momento em que a maioria dos pacientes terminais
tem consciência de seu estado. O que justifica um o trabalho de acolhimento
psicológico e cuidados gerais a tais pacientes (in BROMBERG, KOVÁCS, M. J.
de CARVALHO e A. de CARVALHO, 1996)..
De acordo com Simonton, Simonton e Greughton (1987) e Leshan (1994) uma
atitude positiva frente à doença colabora com o tratamento e amplia a
expectativa de vida, enquanto o desespero e a desesperança levam à redução
da imunidade podendo antecipar a morte.
O cuidado psicológico oferecido ao paciente terminal contribui tanto para a
melhoria da qualidade de vida quanto para a melhoria clínica do paciente, uma
vez que um paciente com enfrentamento terá mais chances de ampliar sua
expectativa de vida.
A situação de hospitalização pode gerar quadros de desorganização psíquica
“em que se atualizam ansiedades e conflitos primitivos, assim como núcleos
psicóticos podem ser ativados. Defesas são mobilizadas que serão mais ou
menos adaptativas, de acordo com possibilidades daquela economia psíquica”
(PEREZ in ROMANO, 2008, p. 63).
As doenças graves e prolongadas podem promover o luto antecipatório na
família. Este tipo de luto ée realizado também pelo doente quando possui as
informações da gravidade de sua enfermidade. O luto antecipatório nos
familiares pode gerar conflitos com o ente adoecido, pois pode gerar
ambivalência de sentimentos nos familiares podendo atenuar atuar suas dores
com atitudes de desligamento ao doente, desejo de morte e culpa; por outro
lado, pode atuar com cuidados excessivos não permitindo que seu familiar
descanse ou fale sobre sua possibilidade de morte. Famílias que enfrentam
juntas a possibilidade de morte, por outro lado, podem preparar-se para os
novos papéis e responsabilidades após o falecimento do familiar. O doente
pode sentir-se aliviado em saber que sua família estará preparada para realizar
as tarefas que eram suas e não ficará desamparada.
A vivência do adoecimento grave traz para o sujeito uma experiência de ruptura
e descontinuidade do ser, pois se confronta com a possibilidade da morte.
(PEREZ erez in ROMANOomano (org), 2008).
Famílias que têm seus relacionamentos carregados de hostilidade e mágoa
são as que provavelmente terão dificuldades em lidar com o adoecimento de
seu ente, dificultado o enfrentamento do processo de adoecer e morte. Afinal,
os ressentimentos não deixaram de existir com a possibilidade de morte de um
familiar. Pelo contrario, a desestabilização da família e crise provocada pelo
adoecimento será mais um fator estressante, que acentuará os conflitos
preexistentes.
o medo. O medo é universal, atinge todas as faixas etáriasestarias e sexo,
independe de condição sócio-econômica ou credo religioso.
E evidente essa constatação uma vez que há em nossa sociedade há a um
negação coletiva da morte, que é vista como um tabu. Em geral, o
desconhecido provoca medo e ansiedades.
Para Becker (2010) (2010) é que o terror da morte é universal, de tal forma que
a humanidade busca evitar a fatalidade da morte por meio da negação. Para o
autor, “de todas as coisas que movem o homem, uma das principais é o seu
terror da morte” ( p. 31.).
Kovács (2002),citando Feifel e Nagy (1981), citandos por Kovács (2002),
afirmam que a ansiedade é um “estado geral que precede uma preocupação
mais específica do homem com a morte”. A ansiedade distingue-se do medo
pela característica dse se r manifestar de modo difuso, ao contrário do medo,
que possui um objeto específico. A autoraKovács (2002) afirma que pessoas
com mais ansiedade apresentam maior medo da morte, pois o medo evoca a
ansiedade.
Embora a criança não possua a idéia abstrata de morte, Becker (2010) propõe
que a ansiedade primária da criança, privada dos cuidados maternos, chamada
de ansiedade de perda do objeto, seja uma forma orgânica, um medo natural
de aniquilamento. Posteriormente, a repressão do terror da morte torna-se um
mecanismo psicológico de autopreservação. O esquecimento da morte na
consciência alimenta o narcisismo, ainda na infância, que permite criar a
fantasia de imortalidade.
Percebe-se na sociedade um medo generalizado da morte, visível nas formas
de negação. Uma das mais significativas e com grandes implicações éticas é
justamente o prolongamento do processo de morrer. Assim, as pessoas que
mais temem a morte tentem a negá-la e paradoxalmente, provocar um grande
desgaste e sofrimento para as pessoas que não há mais possibilidade de
salvar a vida. Há em toda a sociedade um desejo de afastar para longe a morte
e possível heroicamente vencer a morte.
Nesse sentido, a medicina é depositária destas fantasias heróicas no qual é
possível vencer a morte. Tanto pacientes, quanto familiares desejam que o
médico consiga vencer a morte. Nesta fantasia, nem sempre se percebe que
há um momento na qual não mais é possível reverter o processo inevitável de
finitude humana.
Neste momento, quando o processo inevitável de morrer impõe-se, ou o
caminho do longo e sofrido processo de morte tomará curso, ou aceita-sese
aceita que trata-sese trata de processo de morte normal, buscando-se o alívio
do sofrimento.
Num primeiro momento, é comum negar a morte como mecanismo de defesa
psíquico. Entretanto, quando não mais é possível negar a finitude próxima, o
doente teme ser abandonado, não receber cuidados e atenção.
É comum entre profissionais de saúde, crer o mais adequado no tratamento ao
paciente é afastar a possibilidade de morte iminente a todo custo. Percebe-se
neste caso, que trata-se da angustia do profissional em aceitar a realidade da
morte, que nega, afasta e impede o máximo que puder o evento temido. Assim,
é possível que processos distanásicos ocorram justamente pela dificuldade de
reconhecer o momento em que a morte de deixa de ser um inimigo a ser
vencido e passa a se tornar uma possibilidade de alívio de um sofrimento longo
e intenso.
O medo da perda da vida em geral está associado ao medo de desconforto
físico, dor, falta de ar, de ser abandonado, morrer sozinho ou mesmo provocar
sofrimento as pessoas queridas que sobreviverão.
A morte e um acontecimento que desestabiliza a fantasia de certeza de futuro.
Todas pessoas vivenciam essa fantasia, que não deixa de ser um forma de
negação da morte. É essa fantasia que permite as pessoas a fazerem planos
futuros, como planejar o que fazer no dia seguinte, quando comprar um imóvel,
ter filhos, trabalhar, etc. Essa incerteza quanto ao quanto ao que ocorre no
momento da morte e após ela provoca um profundo sentimento de desamparo.
As pessoas temem tanto o período próximo a morte, quanto o que ocorrerá
após o fato. A espiritualidade e as crenças religiosas, em geral promovem um
alívio do temor quanto a vida após a morte, por exemplo, a ideia de paraíso e
reencarnação.
Kastenbaum (1983 in KOVÁCSovács, 2002), explica que se pode considerar o
medo da própria morte (A), ou pelo medo da morte do outro (B). Considerando
o temor da própria morte relacionamos com três aspectos: medo de morrer;
medo do que vem após a morte e medo da extinção.
As crenças religiosas são essenciais nesse momento. A fé promove alivio
espiritual e garante certa tranqüilidade. Não se trata de possuir ou não um
religião, freqüentar ou não igrejas e praticar ritos religiosos. A fé e capaz de
modificar estados psicológicos, por meio do conforto espiritual e oferecer
sentido à morte.
Atualmente, o hospital é o local em que se confirma a morte, e que há no
imaginário cultural meios de controlar e medicalizar os momentos finais. Não
devemos nos esquecer também, que hoje a medicina conseguiu aumentar a
expectativa de vida das populações e adiar a vida de muitos moribundos com
as tecnologias de suporte básico à vida (respiração e de controle cardíacos).
Pode-se afirmar que a manifestação do medo será diferente no adulto e na
criança. Daí, a crença comum de que crianças precisam ser poupadas da
experiência mortal. Ao esconder a morte da criança, o adulto pressupõe que
por se tratar de ser imaturo, a criança não terá condições psíquicas de lidar
com a morte.
“Segundo Wahl (1959) o medo da morte está muitas vezes relacionado ao
medo da castração” (KOCÁCS, 2002. p. 23). Assim, uma vez passado o
período edipiano, as crianças associam o medo da morte às vivencias
edipianas e o medo da castração. Associam à morte aos sentimentos
vivenciados no período do Édipo: culpa, desejos destrutivos, raiva, frustração
em relação aos pais.
Afinal, nesse período, a socialização leva as crianças a vivenciarem frustrações
aos seus desejos e, por conseqüência, algumas delas vivenciam desejo de
morte contra aqueles que são responsáveis por essas frustrações. Associada
e ao mesmo tempo, a criança vivencia culpa e medo de que seus desejos se
realizem; o que pode levar a quadros patológicos de fobia.
Do ponto de vista psicanalítico, não e possível temer a morte em si, pois esta e
uma experiência não vivenciada. Neste caso, a ideia de morte esta associada à
vivência de castração, de impossibilidade e perdas. Nem a criança ou o adulto
têm a morte para o iInconsciente. A idéia de morte é construída a partir de
experiências vitais no desenvolvimento, tanto por perdas reais (pessoais,
animais de estimação, etc.) quanto simbólicas (a infância, o poder, o amor,
etc).
A criança sente a morte do adulto como um abandono, gerando sensações ou
reações de raiva e frustração. Assim, a morte abala o sentimento de
onipotência infantil, pois a criança vê o adulto como forte e poderoso em
contraponto a criança que é frágil. E o sentimento de culpa está presente, por
temer ser responsável pela morte do adulto.
Ao privar a criança de explicações sobre a morte, o adulto não protege a
criança da morte. Apenas nega para si próprio de que a criança percebe que a
morte se faz presente. A criança percebe a ausência. Sem explicações do
mundo adulto, a criança sofre o luto sozinha e desamparada. Muitas vezes, o
medo do adulto em lidar com a morte será percebido de alguma forma pela
criança; como a criança sente-se frágil em relação ao adulto, a reação do
adulto contribuirá com a forma com que a criança manifesta os próprios
temores na situação.
Segundo Kovács (2002), o homem possui dois medos fundamentais e
relacionados: o medo da vida e o medo da morte. O medo da vida se vincula
ao medo da realização, da individualização e, portanto, está propenso à
destruição. Por isso, o indivíduo está vulnerável a acidentes e deslizes. A
autora cita Lowen e explicita o paradoxo que vivendo plenamente as emoções,
fica mais consciente da morte e do desejo de morrer, e por outro lado, para não
sofrer, as pessoas amortecem suas emoções, ficam com menos capacidade de
sentir e também de viver. “Segundo Lowen, toda tensão crônica no corpo
decorre de um medo da vida, medo de se soltar, um medo de ser”, cita Kovács
(2002, p. 26).
ParaSegundo Becker (2010), o homem é impulsionado pelo seu medo diante a
morte, levado a uma frenética atividade e criação, ou uma atitude de heroísmo,
um agir que nega a morte, o qual o autor chama de “mentira vital”. Afinal, se
todos fossem conscientes da morte a todo o momento, levaria ao oposto, a
uma paralisação.
Para o autor, o heroísmo humano é um reflexo do terror da morte. Da coragem
mais admirada é a capacidade de enfrentar a morte. No século XIX, “o herói
era o homem que podia entrar no mundo espiritual, no mundo dos mortos, e
voltar vivo” (BECKERecker, 2010, p. 32).
Doenças também podem desencadear o medo da morte. A neurose produz
sintomas que reduzem a qualidade de vida com objetivo de evitar a morte.
Esse comportamento paradoxalmente diminui a ação do individuo no mundo e
“mata” simbolicamente sua vida, pois vive como se estivesse morto. De acordo
com Becker, o masoquismo pode ser uma forma de afastar a angústia de vida
e morte.
Carvalho (1996) (in Bromberg, Kovács, M. J. de Carvalho e A.de Carvalho,
1996) afirma que há um momento em que a maioria dos pacientes terminais
tem consciência de seu estado. O que justifica um o trabalho de acolhimento
psicológico e cuidados gerais a tais pacientes (in BROMBERG, KOVÁCS, M. J.
de CARVALHO e A. de CARVALHO, 1996)..
De acordo com Simonton, Simonton e Greughton (1987) e Leshan (1994) uma
atitude positiva frente à doença colabora com o tratamento e amplia a
expectativa de vida, enquanto o desespero e a desesperança levam à redução
da imunidade podendo antecipar a morte.
O cuidado psicológico oferecido ao paciente terminal contribui tanto para a
melhoria da qualidade de vida quanto para a melhoria clínica do paciente, uma
vez que um paciente com enfrentamento terá mais chances de ampliar sua
expectativa de vida.
A situação de hospitalização pode gerar quadros de desorganização psíquica
“em que se atualizam ansiedades e conflitos primitivos, assim como núcleos
psicóticos podem ser ativados. Defesas são mobilizadas que serão mais ou
menos adaptativas, de acordo com possibilidades daquela economia psíquica”
(PEREZ in ROMANO, 2008, p. 63).
As doenças graves e prolongadas podem promover o luto antecipatório na
família. Este tipo de luto ée realizado também pelo doente quando possui as
informações da gravidade de sua enfermidade. O luto antecipatório nos
familiares pode gerar conflitos com o ente adoecido, pois pode gerar
ambivalência de sentimentos nos familiares podendo atenuar atuar suas dores
com atitudes de desligamento ao doente, desejo de morte e culpa; por outro
lado, pode atuar com cuidados excessivos não permitindo que seu familiar
descanse ou fale sobre sua possibilidade de morte. Famílias que enfrentam
juntas a possibilidade de morte, por outro lado, podem preparar-se para os
novos papéis e responsabilidades após o falecimento do familiar. O doente
pode sentir-se aliviado em saber que sua família estará preparada para realizar
as tarefas que eram suas e não ficará desamparada.
A vivência do adoecimento grave traz para o sujeito uma experiência de ruptura
e descontinuidade do ser, pois se confronta com a possibilidade da morte.
(PEREZ erez in ROMANOomano (org), 2008).
Famílias que têm seus relacionamentos carregados de hostilidade e mágoa
são as que provavelmente terão dificuldades em lidar com o adoecimento de
seu ente, dificultado o enfrentamento do processo de adoecer e morte. Afinal,
os ressentimentos não deixaram de existir com a possibilidade de morte de um
familiar. Pelo contrario, a desestabilização da família e crise provocada pelo
adoecimento será mais um fator estressante, que acentuará os conflitos
preexistentes.
Comentários
Postar um comentário