Morte: Aspectos históricos


De acordo com Ariès (2003), na idade média as pessoas lidavam com morte de
um modo familiar, intima. Esta forma especial de lidar com a morte ele chamou
de “morte domada”. Nela, o assunto da morte não era tabu, o moribundo com
freqüência tinha uma premonição ou convicção intima da morte. Sentia a
presença e a proximidade do fim. O doente, já prevendo a morte, toma
providências, realiza e controla um ritual em torno de seu fim. A cerimônia é
pública, no leito de casa, conta com a presença de familiares e amigos. Na
“morte domada” as crianças participavam dos rituais diferentes da atitude atual
de encobrir a morte às crianças.

Elias (2001) concorda com Ariès (2003) que na Idade média as pessoas a
temáticao tema da morte não era tratado com mais naturalidade que as
gerações mais modernas. Os autores concordam que a morte hoje é um tabu
tal qual o sexo era na época vitoriana. Entretanto, Elias critica Ariès por
romantizar as atitudes em relação à morte na idade média. Para o autor não é
possível que as pessoas vivessem a morte de forma tão pacífica.

Ao longo do tempo a atitude de proximidade com o tema da morte modificou-se
(Elias, 2001; Ariès, 2003). Ariès chamou essa mudança de atitude de “morte
invertida”, no qual há uma inversão na atitude em relação à morte, que se torna
vergonhosa e interdita.

Durante o longo período que percorremos, desde a Alta Idade Média até a metade do
século XIX, a atitude diante da morte mudou, porém de forma tão lenta que os
contemporâneos não se deram conta. Ora, há mais ou menos um terço de século,
assistimos a uma revolução brutal das idéias e dos sentimentos tradicionais; tão brutal,
que não nos deixou de chocar os observadores sociais. Na realidade, trata-se de um
fenômeno absolutamente inaudito. A morte, tão presente no passado, de tão familiar,
vai se apagar e desaparecer. Torna-se vergonhosa e objeto de interdição. (ARIÈSriès,
2003, p. 84)
Elias (2001) propõe uma explicação para a diferença das atitudes em relação à
morte na idade média e nos dias atuais:

Em resumo, a vida na sociedade medieval era mais curta, os perigos menos
controláveis; a morte, muitas vezes mais dolorosa; o sentido de culpa e medo depois
da morte, a doutrina oficial. Porém, em todos os casos, a participação dos outros na
morte de um indivíduo era mais comum. Hoje sabemos como aliviar as dores da morte
em alguns casos; angústias de culpa são plenamente recalcadas e talvez dominadas.
Grupos religiosos são menos capazes de assegurar sua dominação pelo medo do
inferno. (ELIASlias, 2001, p.23).
Um fenômeno observado atualmente é o deslocamento do local da morte, se
antes era em casa e na presença de familiares, hoje ela ocorre
majoritariamente nos hospitais.
Ariès (2003) explica que a partir da segunda metade do século XIX, há também
uma atitude de dissimulação, em que se pretende ocultar do moribundo a
gravidade de seu estado. A percepção histórica de Ariès (2003) da atitude de
ocultação da morte permitiu a Elias (2001) a chegar a uma conclusão a
respeito das conseqüências atuais da forma de lidar com a morte.

A tese central de Elias (2001) é que a mudança de atitude gera em nossa
sociedade contemporânea a solidão entre os moribundos e velhos. “Nunca
antes as pessoas morreram tão silenciosamente e higienicamente como hoje
nessas sociedades, e nunca em condições tão propícias a solidão” (p.98).

Nos hospitais, a presença de familiares e amigos é inibida, em que a solidão é
uma conseqüência comum. A morte deixa de ser doméstica e torna-se domínio
das equipes hospitalares. Essa mudança propiciou maior controle dos
sintomas, por outro lado, o hospital torna-se por excelência o local da morte,
escondendo da vida cotidiana a sua concretude.

Para Elias (2001) a solidão dos moribundos é conseqüência de um isolamento
dos doentes. A morte atual é recalcada, tanto no plano individual quanto
coletivo. O autor explica que dada aà expectativa de vida alta das sociedades
modernas em relação à idade média, nunca antes se pode esperar viver uma
vida tão longa. Na Idade Média, pessoas com 40 anos eram consideradas
velhas. Dessa forma, longevidade permite que as pessoas afastem da mente a
percepção da própria mortalidade por um longo tempo; e os velhos e
moribundos agridem os sadios em suas fantasias de imortalidade.

O mesmo autor elenca quatro características da sociedade que são
responsáveis pelo recalcamento da morte nas sociedades atuais:

1. Alta expectativa de vida;
2. A morte vista como um estágio final;
3. Alto grau de pacificação interna, no qual a morte violenta é vista como
excepcional, e a por doença e velhice a normal.
4. Alto grau de individualização, no qual as pessoas vivem como sujeitos
isolados e independentes.

Em destaque, o grau de individualização tem por conseqüência uma mudança
de atitude tanto entre o moribundo e os sadios. Segundo Elias (2001), o sentido
de ser autônomo e Self íntimo promovem um bloqueio dos afetos e dos
impulsos.

Assim, percebe-se que com o bloqueio dos afetos, a manifestação de dor e
perda é inibida. Isso pode gerar mecanismos defensivos muito comuns:
Afastamento afetivo entre familiares e o doente, e o chamado pacto de silêncio.

O fato é que o peso gritante morte torna-se inaudito entre as pessoas. O medo
da morte ganha contornos silenciosos.

A morte amplamente negada na sociedade atual permite distorções éticas no
campo das práticas hospitalares. Nessa dinâmica mudança histórica, percebe-
se que o hospital, é o lugar ideal para o controle e cuidado do corpo doente. A
subjetividade do paciente é secundária, uma vez que busca-sese busca salvar
a vida.

Entretanto, quando não há mais possibilidade de cura, o hospital não é de
grande valia se não mudar seus objetivos principais. O hospital nem sempre
foi um lugar destinado à cura, pois a antiga a medicina tinha poucos recursos a
oferecer. Ainda assim, existem limites que nenhuma tecnologia humana é
capaz de superar, e o principal deles é a morte. A tecnologia a serviço da vida
precisa considerar que nem sempre a cura é possível. Nos casos em que a
morte é inevitável, a tecnologia tanto pode estar a serviço dos cuidados
paliativos, permitindo do ponto de vista bioético a ortonásia, ou morte em
tempo correto; ou estar a serviço do prolongamento sofrido do processo de
morte, a distanásia.


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